Ex-animador afirma que animes irão acabar e revela detalhes da situação caótica da indústria

O site japonês, Hatelabo Anonymous Diary, onde os usuários podem escrever de forma anônima sobre suas vidas, ganhou destaque na indústria de animes por conta de uma recente publicação de um ex-funcionário.

A pessoa em questão fez um longo post onde revelou os motivos de ter deixado o trabalho e os porquês de acreditar que a produção de animes está acabada e que é apenas uma questão de tempo até que a indústria comece a desmoronar.

Entre os principais tópicos do post, o ex-funcionário comentou sobre a ilusão de que a produção de animes dá algum dinheiro para os estúdios, já que é o comitê de produção quem fica com todo o lucro.

O estúdio recebem um valor fixo, enquanto que o lucro real, que vem em boa parte da venda de mercadorias, CDs e produtos relacionados a obra, acaba indo para o comitê.

Em exemplo, o autor do post usa Kimetsu no Yaiba, dizendo que não se deve acreditar que a Ufotable fez lucros absurdos com a obra, já que boa parte do dinheiro foi para a Shueisha (JUMP) e a autora da obra.

Por mais que situações do tipo ajudem a aumentar o prestigio do estúdio, em boa parte isso se reflete apenas em um orçamento maior para os projetos, e não necessariamente em lucro real para o sucesso das obras.

Continuando seu raciocínio, o autor do post questiona o “porquê de não se investir em obras originais então?”, e responde que é isso que está acontecendo, mas ainda é algo inviável ao longo prazo.

Além do enorme risco de fracasso comercial por desinteresse do público, os custos de produção aumentam, já que é necessário investir na criação de uma história/personagens ao invés de apenas adaptar algo que já está pronto.

Dessa forma, mesmo que um anime original faça sucesso e dê a sensação de lucro extra para o estúdio, em verdade o resultado não é tão mais positivo que o outro cenário de produção.

Por fim, o ex-funcionário comenta sobre as condições de trabalho e a desvalorização dos animadores e artistas.

Além de ressaltar os problemas já conhecidos, como o salário baixo e o abuso de hora extras, o autor do post deu bastante ênfase no real esforço por trás da produção dos animes e como isso está longe de ser reconhecido.

Por mais que o pagamento por frame (quadros) desenhados possa parecer para alguns um bom investimento de tempo x retorno, a prática é desesperadora.

Nas palavras do autor, “quanto tempo você acha que leva para desenhar um homem ou uma garota vestidos e falando?”.  Um amador poderia fazer isso em oito horas, o que resultaria na média de 13 dólares pelo tempo gasto,  o que faria um funcionário de loja de conveniência rir da sua cara (a média é de 5 dólares por hora, o que daria 40 dólares nas mesma situação).

Por conta disso, não é incomum ser perguntado durante as entrevistas se a pessoa vive com os pais ou tem interesse em morar em dormitórios, já que arcar com a própria alimentação é um desafio por si só e alugueis e demais contas seriam impossíveis de serem pagas.

Somado a tudo isso, o autor do post também comentou que pode ser libertador desenhar pessoas se movimentando, mas isso envolve processos demais, que logo se tornam um problema e fazem o trabalho se tornar extremamente complexo.

Animar movimentos não é simples e envolve diversa etapas que muitas pessoas não consideram no resultado final. Isso faz com que os animadores tenham que se empenhar muito em uma tarefa que não é devidamente remunerada, levando a um desgaste ainda maior.

Mesmo em casos de veteranos e animadores chefes isso não muda, na verdade, pode até piorar. Os salários não são assim tão melhores, e muitas vezes esses funcionários acabam tendo que assumir diversas funções dentro do mesmo projeto.

Não é incomum alguns animadores terem que refazer o trabalho de outra pessoa do zero por conta da qualidade entregue não ser satisfatória, ou terem eles mesmo que assumir diversos processos para suprir a necessidade da equipe.

Para piorar ainda mais a situação, o ex-funcionário comentou que a existência de cronogramas está desaparecendo e que os orçamentos não estão melhorando muito, o que vem aumentando ainda mais os problemas de produção quando somados a falta de pessoas na área.

O treinamento de profissionais também está começando a ser deixado de lado, onde a mentalidade de “se saírem, substitua-os” está ficando cada vez mais forte.

Mesmo em casos como a Kyoto Animation, onde existem programas de treinamentos, a situação não é tão diferente, por mais que seja inegável a melhor qualidade de serviço em comparação aos demais estúdios.

Adicionado tudo isso a completa falta de organização da produções por parte do estúdios, onde até mesmo reuniões são feitas sem considerar a disponibilidade dos funcionários, a bola de neve para o desastre está cada vez maior, onde as pessoas estão abandonam o emprego por problemas mentais, físicos, ou simplesmente desaparecem sem explicação.

Por fim, o ex-funcionário comenta que as horas extras não são pagas, mesmo as empresas fazendo os funcionários baterem o ponto, e que é uma ilusão acreditar que ser diretor é uma posição muito melhor do que a de um animador.

As produtoras ainda continuam empurrando projetos para os funcionários sem qualquer consideração com os cronogramas, custos de produção e bem-estar dos envolvidos, enquanto cobram pelas produções atrasadas.

Não existe qualquer amparo real por parte do governo, seja ele social ou trabalhista, o que faz com que a indústria de animes seja um ambiente sombrio e com um futuro cada vez mais incerto.

Em seu último comentário, o autor do post diz que mesmo a experiência tendo sido valiosa, ele não recomenda a profissão e sugere que  as pessoas pensem duas vezes antes de quererem entrar naquele inferno.

Fonte: Kudasai

Relacionado

Marcelo Almeida

Fascinado nessa coisa peculiar conhecida como cultura japonesa, o que por consequência acabou me fazendo criar um vicio em escrever. Adoro anime, mangás e ler/jogar quase tudo.