As Crônica de Arian 2 – Capítulo 8 – A Bruxa de Lein

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Capítulo 8 – A Bruxa de Lein

Jon sempre sonhou em ter sua primeira vez com Joanne, depois de um dia mais que romântico. Isso, no entanto, não era mais possível. Ao invés disso, sua primeira experiência foi com uma bruxa pedófila. Nojo, horror, tristeza, ódio, uma mistura de sentimentos tomava sua mente, enquanto Marin cavalgava sobre seu corpo, e ele gritava de dor com todas as forças que o restavam. Podia quase sentir sua alma se desfazendo.

Infelizmente, por mais que ainda tivesse fé, não teve como não lembrar de Arian dizendo que os deuses não estavam nem aí para ele. Sabia que era egoísmo ele, entre tantas pessoas, ser atendido, nem sequer pertencia àquele mundo, afinal,mas não conseguia deixar de desejar que Alizen enviasse alguém para salvá-lo.

— Desculpe, garoto, mas não vai poder morrer olhando para esse belo corpo, não estou conseguindo mais me controlar.

Logo depois de dizer isso, a cor do corpo de Marin mudou para um marrom-escuro, com suas veias, em uma cor azulada, sobressaindo sob a pele, e seu cabelo, antes castanho, ficou totalmente branco. Seus dentes ficaram levemente pontiagudos, e sua língua ficou mais fina e comprida. Jon teve que corrigir seu pensamento anterior, sua primeira vez não foi com uma bruxa pedófila, mas com uma humana possuída por um demônio.

Marin deitou a parte da frente de seu corpo sobre o dele, e começou a lamber seu pescoço. Sua língua tinha aumentando várias vezes de tamanho e estava extremamente pegajosa. Não só isso, mas ela também estava queimando sua pele. Por que ele ainda estava excitado era um mistério para Jon. Ela estava usando alguma magia nele, ou como alguns adultos diziam, “garotos se excitam com qualquer coisa”. E pela terceira vez, ainda que estivesse sentindo uma dor alucinante, uma sensação de prazer incontrolável passou pelo seu corpo, ao mesmo tempo que Marin também soltou um gemido muito alto. Como ele ainda conseguia sentir isso, sendo que mal estava conseguindo respirar de tão cansado, e quase agonizando de dor, não fazia ideia.

— Impressionante… Estou obviamente dando uma ajuda com magia, mas o mérito ainda é seu… Já deve ser a terceira vez e ainda está tão vívido , vai me engravidar assim, Jon… Uma pena que a criança vai nascer sem um pai. — Marin parecia realmente estar se divertindo com aquilo. — Devia me agradecer. Poderia drenar sua alma apenas o beijando, como faço com a maioria das mulheres ou homens que não me interessam. Mas dessa forma é tão mais divertido e prazeroso… Você com certeza está sentindo muita dor, mas existe prazer também, não?

Só tinha escutado metade do que a mulher disse. Havia começado a perder a consciência, e foi então que o cenário mudou.

Estava em uma casa mais simples, e podia ver vastos campos verdes pela janela. Uma garotinha de uns 6 anos chorava e se debatia enquanto era segurada por um homem. Seu desespero não era à toa, já que vários homens estavam espancando seu pai e sua mãe em sua frente. “Bruxa”, eles gritavam, enquanto chutavam e batiam em sua mãe, que já com os braços quebrados, não conseguia mais se defender. Seu pai, com a cabeça quebrada, não mais respirava.

Cansados de bater na mulher, eles arrastaram sua mãe para fora da casa, a puxando pelo cabelo. “Queimem ela, queimem!” gritavam as pessoas do lado de fora, enquanto sua mãe, agora com quase todos os dentes quebrados, tentava dizer algo, inutilmente. “Arranquem a língua dela antes que nos enfeitice” sugeriu uma das mulheres na multidão. Um dos homens obedeceu e cortou a língua da mulher fora, logo depois outro usou brasa quente para estancar o sangue, de forma a não deixá-la morrer.

A garotinha, também arrastada para o lado de fora, continuava obrigada a assistir a cena, em prantos, e sem poder fazer nada. “Queimem a filha também” sugeriu uma das pessoas. Mas outros parecem ter ficado com pena, e uma discussão começou. Acabaram aceitando a proposta de um homem de vendê-la como escrava para tirá-la da cidade  Mas antes, eles a obrigaram a ver a mãe ser queimada viva, como forma de desincentivá-la a mexer como bruxaria no futuro. Nunca mais esqueceria o cheiro da carne que lhe deu vida queimando, assim como os gritos de desespero de sua mãe.

Seu pai era apenas um fazendeiro comum, e sua mãe não era uma bruxa, apenas uma mulher que sabia como usar ervas para curar doenças comuns e feridas. Um membro do culto dos celestiais, que abriu um negócio na cidade, cobrava uma fortuna pelas curas que fazia, e queria se livrar da concorrência. Então, acusou sua mãe de bruxaria por curar as pessoas sem saber usar magia celestial. E assim ela acabou morta pouco tempo depois, por ter ajudado os outros sem cobrar nada por isso. Nesse dia a garota aprendeu o quão horrível podiam ser os seres humanos.

A garotinha, parecendo um corpo sem vida depois de tudo que passou, virou uma escrava, e foi abusada de mais formas do que conseguia se lembrar por 10 anos seguidos, até que em uma tentativa de se matar, comeu parte da cabeça de um demônio de classe S que deixaram exposto na cidade em que estava, como forma exaltar o grupo de heróis local que o matou. A carne estava podre, e tinha um gosto pior que fezes humanas, as quais ela já havia sido obrigada a comer. Ela adoeceu logo depois, como um outro escravo disse que ocorreria se tivesse coragem de comer o demônio. Mas ao invés de morrer, ela acabou possuída pela alma do demônio morto.

Ele estava fraco demais para controlá-la, como ocorre na maioria das possessões, e ela quase morrendo. Então, ao invés de tentar dominar seu corpo, ele se fundiu a sua alma. Depois disso, a garota se recuperou rapidamente, ganhou força física sobre-humana, afinidade com magia negra e, segundo o demônio a prometeu antes de se fundir a ela, vida eterna. Para isso, bastava ela coletar almas para seu corpo.

— Isso quase sempre acontece quando eu conecto a minha alma a de outra pessoa — disse Marin, olhando para Jon. — Não é irônico? Ao tentar me matar, eu acabei me tornando o que eles tanto temiam que minha mãe fosse… Depois daquilo matei todos os homens que abusaram de mim naquela cidade, e cacei cada uma das pessoas que destruiu a vida dos meus pais e me sentenciaram a 10 anos de mais dor e sofrimento do que uma pessoa é capaz de imaginar…

Lágrimas começaram a sair dos olhos de Jon. Mesmo sabendo tudo que ela fez de ruim, as lágrimas não paravam. Ao notar isso, Marin parou de se mexer por um momento, e olhou para ele pasma.

— Você é realmente uma pessoa estranha, Jon. Se eu fosse mais jovem e ingênua, provavelmente teria me apaixonado por você… Acredite ou não, eu sinto muito por isso, mas ao menos você vai morrer sentindo bem menos dor que suas amigas… Adeus…

A mulher voltou para a forma humana, e agora aparentava ter perto de 30 anos. Ela não parecia estar mais se divertindo, apenas com pena. Marin começou a mover o quadril com mais vontade em cima dele, enquanto Jon tentava não desmaiar. Estava sentindo uma quantidade de dor e prazer absurdos enquanto o pouco que lhe restava de vida deixava seu corpo.

Não só falhou em seu plano, como morreria da forma mais humilhante possível. Foi quando a porta do quarto explodiu e ele a vislumbrou: Usando um vestido branco e com seus longos cabelos loiros balançando, a mulher que mais odiava naquele mundo, e que nunca sentiu tanta felicidade em ver. Marin se virou para a porta, abismada.

— Isso é impossível!

Lara, que havia recuperado sua forma adulta, entrou correndo pela porta e arremessou sua espada de gelo em Marin, que saiu de cima de Jon e se jogou para o lado. Ela voltou a forma de demônio, se levantou rapidamente e lançou energia negra em Lara, que bloqueou com energia celestial, ao mesmo tempo que sua mão direita se abriu, e a espada de gelo voltou para ela.

— Oi, Jon, vejo que não posso mais te chamar de virgem… Embora sua escolha de parceira tenha sido meio nojenta… — disse ela, reparando na situação dele, totalmente nu e de pernas abertas no meio da cama, com uma gosma negra cobrindo o meio das pernas, claramente uma cortesia da bruxa.

Marin, furiosa, lançou novamente energia negra contra Lara, que foi empurrada para trás, mas conseguiu bloquear.

— Será que vão gravar meu nome nos livros de história por matar uma bruxa famosa? — questionou a garota, exaltando confiança. Sua aparência era ao mesmo tempo sexy e bizarra, já que tinha aumentado de tamanho usando um vestido feito para alguém menor. Como resultado, seu busto estava espremido e sua saia estava parecendo uma mini-saia. Se o vestido não fosse de alta qualidade e esticasse, provavelmente já teria rasgado.

— Jon tinha razão, sua arrogância é impressionante.

— Sem… Dúvida… — concordou Jon, pálido, e falando com dificuldade, ainda amarrado na cama.

— Cala a boca, Jon. Está à beira da morte e ainda quer me irritar?

— Joanne… — murmurou ele, tentando entender porque somente Lara estava ali.

— Ela e Irene não conseguiram entrar, tem muita energia da dimensão negra na parte de baixo do prédio. Mesmo conseguindo arrombar a porta, qualquer um que entrasse iria morrer. Quer dizer, qualquer um menos eu. Mas a porta foi complicada de arrombar, demorei mais do que esperava para desfazer as magias que ela colocou ali. Na minha outra forma demoraria muito mais para passar pela quantidade de energia da dimensão negra que deixou no primeira andar também. Que azar o seu eu ter saído do pagamento logo que consegui abrir a porta…

Jon não falou nada, só fez uma cara de insatisfação por Lara estar tentando se mostrar, mesmo em um momento crítico.

— Venho salvar sua bunda e me faz essa cara? Espera só, vou mandar fazer uma pintura desse seu momento para colocar em um enorme cartaz na cidade da…

Lara foi interrompida pelo grito furioso de Marin, provavelmente ultrajada dela a estar ignorando.

— Peguem ela!

Antes que conseguisse perguntar com quem ela estava falando, Lara foi arremessada com força contra a parede e caiu de joelhos, sem ar. Pouco antes de levantar algo bateu em suas costas e a prensou contra o chão.

— Sua covarde, me enfrente sozinha!

— Matem ela! — ordenou a bruxa, lançando energia contra Lara.

— Podem tentar… — disse Lara, enquanto seus olhos ficavam dourados e energia celestial se acumulava a sua volta em grande velocidade, barrando a energia negra da bruxa.

A energia negra não tinha o poder de arremessar, mas corrompia, destruía objetos próximos e matava pessoas que entrassem em contato com ela rapidamente, então se Lara deixasse aquilo entrar em seu corpo, morreria.

— Mas o que é você? — questionou Marin, incrédula.

Lara liberou a energia que tinha acumulado ao seu redor e tudo a sua volta voou longe. Seja lá o que a estava segurando contra o chão, não estava mais lá. Ela se levantou, puxou novamente sua espada, e começou a acumular energia celestial em sua mão.

— Jon, descobriu o que queria? — questionou a garota, agora parecendo furiosa.

Jon fez que sim com a cabeça.

— Então não precisamos mais dela.

Jon pode ouvir o barulho de vários micro portais se abrindo em toda a área. Os cabelos de Lara começaram a voar em todas as direções e seus olhos ficaram novamente dourados, enquanto os da bruxa, em contraste, ficaram completamente negros. Ambas estavam puxando uma quantidade absurda de energia das dimensões com que tinham afinidade. Elas então liberaram a energia acumulada uma contra a outra.

As duas energias se chocaram e boa parte do quarto foi pelos ares. Lara usou energia celestial para bloquear o choque de ar gerado pela colisão, mas a bruxa foi arremessada para fora do prédio.  Lara, gritou de dor enquanto voltava a sua forma menor.

— Maldição! É a segunda vez.

Considerando a quantidade de energia que usou no último ataque, a surpresa de Jon seria se ela não voltasse a seu pagamento. Como tinha acabado de sair dele, sua energia espiritual não devia estar muito alta quando entrou no quarto.

Com as pernas bambas, Lara se levantou, ofegante, e então caminhou lentamente até a beirada do quarto, que agora não tinha mais parede. Com a espada em punho e energia na outra mão, ela observou por um tempo os destroços que caíram no beco, ao lado do prédio, mas a bruxa não estava no meio dos escombros.

— Ela fugiu — constatou a sacerdotisa.

A fumaça negra vindo do primeiro andar não podia ser mais vista pela porta do quarto também, o que comprovava que quem estava mantendo a magia não estava mais por ali.

Nesse momento, Jon experimentou seu segundo pior momento da vida, quando Joanne e Irene entraram pela porta, só para vê-lo amarrado ao que agora era o pedaço de uma cama, graças a luta da bruxa contra Lara. Mais importante, ele não tinha força para sequer fechar as pernas, e suas partes baixas ainda estavam expostas e cobertas por uma gosma negra, que ele preferia não saber exatamente o que era, ou os efeitos colaterais que poderia causar.

Ninguém falou nada, provavelmente Joanne e Irene estavam envergonhadas demais para fazê-lo, ou então ocupadas demais tendo que segurar juntas a caixa amaldiçoada do Lich, até que Lara quebrou o clima de uma forma que Jon nunca mais iria esquecer. Ela arremessou energia celestial no meio de suas pernas. Jon pensou que iria desmaiar de novo, tamanha a dor que sentiu.

— Lara?

Joanne estava olhando para ela sem entender nada.

— Estou purificando, ele acabou de ser infectado por energia da dimensão negra tendo relações com aquela coisa — Lara falou de forma inocente, apontando para o meio das pernas dele. Mas, por sua expressão nervosa, estava apenas descontando sua frustração de ter voltado ao seu pagamento nele.

— Não precisa arremessar energia pra isso… Bastava encostar…

— Acha que vou colocar a mão nesse treco nojento no meio das pernas dele?  — Lara estava tirando o máximo que podia daquilo. Irene, por outro lado, estava tendo a decência de segurar o riso que estava querendo dar desde que entrou no quarto.

— Ela drenou toda a energia espiritual dele, e talvez uma parte da alma… Mas é estranho, não vejo sinais de um pagamento. Jon, está sentindo algo diferente?

— Só dor… falta de ar e… minha visão está embasando…

Jon estava ficando ainda mais pálido, mas Lara não parecia estar preocupada, e novamente lançou energia celestial contra as partes baixas de Jon.

— O que está fazendo? — gritou Jon, agonizando.

— Só por precaução — disse Lara, olhando com nojo para a gosma negra.

— Ele vai desmaiar. Lara, mesmo nesse estado você tem energia sobrando, passe um pouco para ele. — disse Joanne.

Lara olhou feio para a proposta.

— Eu prefiro me matar a ter que beijar esse idiota para passar energia!

— Passe encostando a mão nele então! Se não fizermos nada ele vai morrer!

— Você sabe que demora uma eternidade para passar energia sem contato interno, e a guarda da cidade vai aparecer aqui a qualquer instante.

— Ela tem razão, Joanne. E algo me diz que não vão estar nem ai para a bruxa. Vamos acabar presas se ainda estivermos aqui quando aparecerem.

— Certo, eu mesma faço.

Joanne jogou a caixa amaldiçoada para Lara e se aproximou de Jon. Seus rostos se aproximaram até os lábios da sacerdotisa se unirem aos dele. Infelizmente, Jon não conseguia mais nem mexer a boca, o que obrigou Joanne a abri-la, de forma a poderem encostar suas linguás.

Aquele era para ser um dos momentos mais felizes de sua vida, mas ele só queria chorar de tristeza. No mesmo dia perdeu sua virgindade para um demônio e a chance de ter um primeiro beijo romântico com Joanne. Aquilo não era diferente de uma respiração boca a boca.

Pouco tempo depois, a sensação de exaustão diminuiu e ele conseguiu voltar a se mexer. Os lábios de Jon e Joanne se separaram e ele levantou cambaleando. Estava bastante constrangido, tanto por sua falta de roupas, quanto pelo que Joanne acabara de fazer.

— Certo, o que descobriu? — perguntou Irene.

Jon ainda estava meio tonto, mas no pedaço de espelho quebrado a sua frente, notou que sua aparência estava horrível. Uma pequena parte do seu cabelo tinha ficado branca, provavelmente um efeito colateral de ter parte da alma drenada. Mas não tinha tempo para pensar nisso agora.

— Eu sei onde elas estão! Precisamos do Arian e do Marko, agora!

Próximo: Capítulo 9 – 60 Metros

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