As Crônicas de Arian – Capítulo 2 – A elfa idiota

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Capítulo 2 – A elfa idiota

Robert estava com Sara e seu pai na cozinha.

— Não se preocupem, é a primeira vez que isso ocorre em meses, e no fim tudo acabou bem. Me lembrem de agradecer ao Arian quando o virmos de novo. E Sara, fique ajudando na cozinha o resto da noite.

Sara ainda estava nervosa, mas forçou um sorriso e se dirigiu à pilha de louça suja.

— Rob, pare de me olhar assim, eu estou bem — disse a meio-elfa, ainda forçando um sorriso.

Robert suspirou, não muito satisfeito, enquanto limpava a testa suada e voltava ao seu posto na porta, onde encontrou Arian o esperando.

Pensou que ele pediria ajuda, mas em vez disso o mandou apenas cuidar de Sara e Jeff. Sem problemas, de certa forma ele era pago para isso.

Quer dizer, na verdade seu serviço era evitar brigas e ladrões, não se preocupar com a filha do chefe… Continuou tentando se convencer disso, sem muito sucesso. Por que se importava tanto afinal?

Após pensar por algum tempo, chegou a conclusão de que não havia muito como evitar, pelo menos não com Sara. Era a única garota de aparência tão chamativa que o tratara bem sem nunca pedir nada em troca. Ele sorriu olhando para uma cicatriz no braço, que ganhara enquanto tentava parar uma briga de dois bêbados lutando com garrafas quebradas. Sara ficou desesperada ao vê-lo sangrando, e fez questão de refazer o curativo diariamente, mesmo a contragosto dele. Tentou até usar magia de cura, sem muito sucesso, repetindo as palavras de um livro infantil que leu sobre sacerdotes, enquanto punha a mão em sua cabeça ferida. A lembrança sempre o fazia rir.

A garota era inocente demais, muito devido à proteção do pai, e só viver próxima a alguém conhecido. Mas se foi isso que ajudou a moldar sua personalidade, talvez não fosse algo ruim. Ele odiava admitir, mas vê-la feliz todos os dias contando suas histórias banais o alegrava.

O bar finalmente esvaziou e as portas foram fechadas. Robert estava ajudando na limpeza, como sempre fazia. Todos os funcionários já tinham ido embora, menos ele, Jeff e Sara.

— Sara, pegue o queijo no armazém, vou fazer algo para levarmos para casa e comermos de manhã.

— Certo — disse Sara, fazendo uma careta.

Sara odiava queijo, mas nunca contou a seu pai adotivo, que adorava e parecia feliz ao pensar que ela apreciava também. Robert notou isso faz algum tempo, o que o levou a rir, enquanto carregava as cadeiras de um lado para o outro dentro do bar.

— Faça um pouco pro Robert também — disse ela.

— Não precisa… — Tentou retrucar Robert rapidamente. Também não era fã de queijo.

— Mas claro, e grato novamente por sempre ficar até sairmos Rob — respondeu o senhor de uns 60 anos, dando uma batidinha amigável nas costas de Robert.

Robert engoliu seco, fazendo cara de nojo. Na porta, Sara estava rindo, e mostrou a língua para ele antes de sair. Parece que ela não era tão inocente quanto pensava. Ao menos não o convidaram para dormir na casa deles, como ocorria às vezes. Sara tudo bem, não tinha maldade, mas Jeff? “Que tipo de pai deixa um cara enorme e de aparência suspeita dormir dentro de sua casa, com sua adorável filha lá?”, pensou Robert. Ficava feliz de confiarem tanto nele, mas ao mesmo tempo incomodado pela falta de bom senso dos dois.

Enquanto pensava sobre isso, Robert ouviu um grito, e suou frio. Era Sara…

Correu para a porta de trás do bar, mas parou assim que viu o que estava acontecendo. Haviam oito, não, onze soldados cercando Sara, que estava acuada próxima a parede da casa deles, que ficava ao lado do bar. Seu pai estava nos braços dela, com um corte enorme na cabeça. Já havia morrido.

Rob respirou fundo. Sabia o que viria a seguir. O líder era o homem com o braço quebrado de mais cedo. Ele pensou que a raiva do indivíduo tinha sido direcionada à Arian, e ele eventualmente esqueceria de Sara, mas não. Será que já tinham matado o guardião também?

Robert sabia o que tinha que fazer. A saída pela porta da frente do bar era a fuga mais fácil. Ficar ali dentro era arriscado. Provavelmente iriam saquear o bar depois de se divertir. A porta do bar estava aberta a poucos metros deles.

Seu chefe estava morto, qualquer tentativa de ajudar Sara seria estúpida, era um contra onze. Ele podia dar conta de dois ou talvez até três, mas onze? Sara iria acabar morta da mesma forma, e ele junto.

— Não… pai, por favor, não me deixe… — soluçava Sara, abraçando o corpo de Jeff. Não parecia ter aceitado a morte dele ainda.

O homem com braço quebrado, Philip, separou a garota à força do corpo do pai, e rasgou a parte de baixo do seu vestido. A garota reagiu o empurrando com os braços e gritando.

— Quieta! — O homem lhe deu um soco no rosto com toda a força e Sara caiu de bruços no chão, sentindo as pedras pontiagudas machucando sua pele.

Com um gemido, e uma expressão cheia de raiva, fez força com os braços, tentando se levantar. Ela então se virou e cuspiu o sangue em sua boca em Philip.

— Sua vadia, já disse para ficar quieta! — Veio mais um soco no meio do rosto, e mais um, seguido de outros, a garota já parecia atordoada.

O irmão do Philip, Lucio, parecia incomodado.

— Não está fazendo isso por causa da amante do papai, está? Já se vingou o bastante fazendo aquilo com a filha dela….

— Cale a boca! Se quiser culpar alguém culpe nosso pai. Parece que herdei o mesmo gosto ruim — retrucou ele, colocando o joelho sobre o peito da meia-elfa, na tentativa de fazê-la parar de se mexer. — Mas pelo menos, não sou estúpido o bastante para largar minha mulher para ficar com uma vadia dessa raça. Me divirto e me livro delas, como ele deveria ter feito – E veio mais 2 socos na cabeça da garota, que ainda tentava se desvencilhar. — Nunca vi uma tão resistente — Philip tirou uma pequena faca da cintura. — Foi você que pediu!

Ele então cravou o objeto na coxa da garota, que gritou com toda força.

— Calma… eu só cortei o músculo, não vai morrer enquanto estiver me divertindo — disse ele, retirando a faca lentamente, enquanto a garota agonizava de dor.

Robert apertou seu punho e se forçou a ficar calado. Sua respiração estava ofegante, seu pulso acelerado, nunca sentira tanta raiva na vida. Não sentia calor, frio, só conseguiu ouvir a voz de Sara.

— Rápido Philip, não temos muito tempo antes que perguntem onde fomos.

“Calma”, pensou Robert, “ela ainda está viva”. Se fosse levado pela raiva ali estaria tudo perdido. Daria tempo para pedir ajuda na cidade? Eles iriam tentar se divertir com Sara antes de matá-la, talvez se…

Foi quando ele viu… Sara estava olhando para ele. Ela não pediu ajuda, pelo contrário, fez uma cara resoluta de que sabia o que viria a seguir. Virou de leve o rosto ensanguentado e coberto de lágrimas para a esquerda, repetidas vezes. O que ela queria dizer a ele era óbvio: ‘Fuja’.

— Sua Idiota – Robert perdeu o controle sobre seu corpo. Estava calmo, todo som à sua volta se foi, enquanto seu lado racional era dominado pelo emocional. Ao sair pela porta, sorriu, conformado com o que aconteceria a seguir. Seu único pensamento, foi de que ao menos seria por alguém que valia a pena.

Próximo: Capítulo 3 – Por Alguém que Vale a Pena Morrer

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