Beastars – Carnívoros X Herbíferos

Abertura em Stop-Motion do anime

Beastars foi adicionado recentemente ao catalogo da Netflix, então por que não unir o útil ao agradável e discutirmos esta obra linda que ganhou um acesso muito maior agora que foi adquirido pelo streaming?

Para quem não conhece a obra, Beastars é um Zootopia bem mais denso e violento. E não tem como não fazer esta comparação já que a premissa da obra é parecida: Uma sociedade de animais humanoides com seus conflitos e demônios pessoais, principalmente, relacionado aos estigmas dados as espécies que são divididas pela sua dieta entre herbívoros e carnívoros.

Praticamente temos tudo que é trabalhado no enredo da Disney, só que de forma mais sombria, já que, apesar da sociedade de animais aparentar ser pacifica e harmônica, a predação ainda existe, a hierarquia do reino animal está posto diariamente para você e é concretizada dentro do enredo através da relação entre as próprias espécies, os assassinatos e o famigerado mercado negro.

Primeiro: Por que não pensar que vocês também se colocam como comida deles?

Afinal como fazer amizade com alguém que evoluiu para ser seu algoz? Como se relacionar com alguém que desperta teus instintos predatórios? Como ir contra a maré e provar que você é maior que a sua biologia quando todos dizem que, por ser o que é, você é um “monstro”, uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento?

Baseado no mangá de Itagaki, acompanhamos a história de Legousi, um jovem Lobo Cinzento do prestigiado Colégio Cherriton que procura conviver da melhor maneira possível com seus colegas e amigos herbívoros, enquanto lida com os preconceitos inerentes a sua espécie, afinal, quem confia em um lobo não é mesmo? Mesmo que o lobo em questão seja tímido e a maior parte do tempo um atrapalhado.

Contudo, para piorar suas relações sociais, acontece um assassinato com um dos membros herbívoros do Clube de Teatro do qual ele faz parte, o que deixa a atmosfera da escola mais pesada e cria a velha aura de desconfiança entre “predadores” e “presas”.

Com esta cara de psicopata ai, fica difícil, né, irmão?

Em contraposição ao Legousi, temos Louis, um Cervo Vermelho, a estrela da escola que ambiciona ser o Beastars (titulo que dá titulo ao anime), um animal que transcende o preconceito e o medo, aquele destinado a liderar os outros animais independente da espécie.

O cervo despreza a atitude de Legousi de ficar ao lado dos “fracos” e esconder as características de dominador que possui . Sua animosidade em relação a Legoshi vem do fato de que ele, como um cervo, sempre será visto por metade da população como presa, enquanto Legousi tem tudo o que ele sempre quis, força e mecanismo de impor respeito a sua vontade de forma natural. Basicamente, Louis odeia que Legousi finja o que não é, e fique deixando o que pensa, e o que deseja, para evitar conflito com outros animais.

Para Louis, a submissão autoimposta de Legousi é simplesmente irresponsavelmente, irritante e uma fuga dos problemas que o lobão deveria encarar.

Aquele senpai que só te esculacha, mas tu tomba por ele XD

E para deixar as coisas um pouquinho mais emocionantes, as características de predador de Legousi são despertadas por Haru, uma Coelha-anã. Ele tem que lutar contra seus instintos primitivos de caçador enquanto tenta descobrir se o que sente pela colega é autentico ou uma farsa construída pela sua vontade de devorá-la.

Pensa que os problemas do enredo acabaram ai? Haru não é apenas uma donzela em perigo, assim como Louis e o protagonista, sua personagem tem camadas. Incomodada pelo fato das pessoas sempre a tratarem com pena por sua aparência inocente e frágil, enquanto é dotada de uma personalidade mais ousada, a coelhinha está profundamente ciente de que está sempre a um passo da morte por causa das características de sua espécie. 

Haru é o único membro do clube de jardinagem da escola e possui uma reputação de ser promíscuo, sendo trata apenas como “a vadia” pela maioria de seus colegas. Contudo, como deixa claro, o sexo é o único momento que ela sente que os outros animais a veem e a tratam como Haru, e não uma coelhinha com tempo de vida incerto, além disso, ela só tem olhos realmente para Louis, por quem é apaixonada.

O seu amor ou a sua presa? Eis a questão!!!!

Ao longo da série somos envolvidos nesse triângulo amoroso inter-espécies que é o fogo que gera toda a movimentação e momentos mais tensos do enredo, enquanto somos apresentados ao passado, medos e ânsias de cada um dos personagens que são falhos, cometem erros, fazem juízo de valor, sentem dúvidas de si próprio, ficam deprimidos, brigam entre si, etc.

Beastars é um daqueles animes que a história é realmente construída por seus personagens, a obra não apenas consegue criar um mundo interessante, mas também gera tensão à medida que mais e mais do universo nos é revelado junto com os personagens que estão constantemente lutando contra os demônios em sua mente.

Uma sociedade cruel: Predação, Aparência e Status social

Apesar de aparentemente os animais viverem em uma sociedade civilizada e diversificada com uma relação inter-especie que aparentemente é pacifica, a realidade já nos bate a porta nos primeiros segundos do anime onde um herbívoro é supostamente encurralado e morto por seu colega carnívoro.

Uma sociedade predadora, agressiva e baseada em poder, isto é Beastars. Apesar da idealização de um convívio e coexistência entre seres tão diferentes, o que vemos é uma sociedade extremamente polarizada no qual os carnívoros e herbívoros estão em uma disputa constante e são colocados diariamente em seus supostos papeis.

Para os herbívoros a sobrevivência é a regra geral , os carnívoros são mais fortes e biologicamente superiores, suas garras e presas são desenvolvidas para rasgar a sua pele. Em suma, por mais que seu melhor amigo seja um Guepardo, por mais que você ria e se solidarize com ele quando este recebe um fora da garota que ama, enquanto o consola, a dúvida e o medo estão presentes.

Quer melhor exemplificação disso que isto aqui? Como com ele, mas quero correr dele!

Os carnívoros são então estigmatizados como dotados de extintos primitivos e assassinos, sendo forçados constantemente a esconderem suas características, tudo para serem aceitos e tratados com menos desconfiança por seus colegas herbívoros.

Contudo, apesar da predação ser ilegal, ela existe e também esta estruturada na sociedade, afinal, um predador sempre será um predador, e uma presa, sempre será uma presa. Cada um ocupa e deve ocupar o seu papel. Um carnívoro é mais forte e ágil que um herbívoro, em uma disputa física, ele ganha.

Portanto, ser carnívoro (ou ter as características de um carnívoro) é ser o topo da pirâmide social, ser aquele que tem o domínio. Observem que os herbívoros possuem em sua maioria uma postura submissa aos carnívoros, afinal eles instintivamente reconhecem que seu colega é “o dono”, o senhor daquele território, a quem eles devem obedecer e seguir.

Observem também que uma lei por si só não consegue tornar uma sociedade melhor e quando uma grande parte da sociedade não se sente bem, infelizmente tende a deixar espaço para atividades antigovernamentais como o mercado negro. 

O mercado negro, o cenário de uma triste realidade

O mercado negro só existe porque uma parte da sua sociedade necessita dele. Credo, Sirlene, então você deixaria um carnívoro devorar um herbívoro? Para inicio de conversa, por que os herbívoros culpam os carnívoros por serem carnívoros?

Você esta negligenciando necessidades naturais de uma parte da sua população e julgando um indivíduo por seu vicio. Entendem que o consumo de carne pode ser considerado uma droga? Uma droga que tira a sanidade dos carnívoros?

Eles não são bestas, biologicamente seu organismo os tornam dependentes químicos de uma substancia: carne. E você faz juízo de valor do transtorno do coleguinha, quando o coleguinha claramente sofre internamente com aquilo.

Monstros ou sujeitos ensandecidas por alguém que se aproveitou de um “vicio biológico”?

Claro que você pode escolher ceder ao vicio ou lutar contra ele (o que Legousi faz), contudo, porque você lutaria contra algo que um “amigo” grita para você que é sua essência natural? Afinal, você é um monstro “domesticado”, por que reprimir um desejo, se no fundo só me enxergam como o predador?

Os próprios indivíduos dessa sociedade criam o espaço para a predação e não para a aceitação do problema dos carnívoros. Claro que tem carnívoros que não valem nada, são imorais e bestas mesmo, mas personagens como Legousi acabam sofrendo com o estigma de “assassinos naturais” por possuírem tal necessidade.

Beastars é praticamente uma sociedade de rótulos e impressões. A todo o instante estão criando preconceitos de sua imagem pelo o que você deveria ser e pelo o que você faz. E isto se tornou algo tão natural que alguém agir contra o rótulo o torna estranho (Legousi).

Quebra de ciclo: réu por não querer se impor como “predador”

E qual o problema com os rótulos, impressões e generalizações? Eles são baseados muito em aparência e nem sempre a aparência externa o que a pessoa realmente é, já que um indivíduo possui várias camadas que o tornam um ser único.

Por exemplo, você recusa a conhecer alguém porque ele aparenta ser agressivo (Legousi), ou, você se dispõe a fazer sexo com alguém (que não tinha este objetivo) porque se acostumou com as pessoas te ajudando em troca de uma boa noitada (Haru), então concebe que todos que te ajudam só querem na verdade o sexo com você.

Estes rotulações e impressões preconceituosas acabam dificultando você criar uma imagem de si mesmo e, às vezes, você acaba cedendo a maré e constrói algo baseado no papel ou imagem que os outros te dão, isto é bastante comum na adolescência e juventude quando ainda não criamos uma identidade sólida.

Essa imagem ou aparência também esta ligada ao status social, as diferentes funções que acabamos ocupamos no interior da sociedade.  Por exemplo, o Louis desagrada muitos carnívoros por se impor te forma mais dominadora sendo um herbívoro, um ser que deveria se submeter a eles.

Quebra do Ciclo: Louis, um Herbívoro agindo como Carnívoro

Note que para ser o Beastars o cervo tem que ser forte como um carnívoro. Consequentemente, ele sofre uma grande pressão para passar essa impressão de indivíduo perfeito e invulnerável, coisa que obviamente ele, e ninguém, é, mas ele tem que ser o líder impecável, a muralha inquebrável, isto tudo para ser respeitado e conseguir a liderança que almeja.

Nota: Ser forte como um carnívoro não é só força física, é ser forte no caminhar, ser forte quando for falar, ser forte na hora de tomar uma decisão, não passar fraqueza ou fragilidade em momento algum, ser assertivo e impor sua vontade.

O prefeito da cidade também precisou adaptar sua imagem para passar confiança e valor aos seus eleitores, se continuasse com as características iniciais, seria alguém improprio por não ser algo “amigável”, ele precisou se artificializar.

Percebem que sociedade cruel? Faz você ser o que você não é. Pois é, tão diferente, mas igual a nossa.

Relação Inter-racial: O que é normal e anormal em amar

Uma coisa bacana em Beastars, e que não vemos tão claramente em Zootopia, são as relações no sentido romântico entre espécies diferentes. Em um mundo em que vários tipos de animais convivem em uma sociedade parecida com a nossa não teria relações inter-raciais?

Itagaki joga com a diversidade em todos os seus aspectos e engata a discussão: O que seria normal ou anormal em amar? É assim incombinável um Lobo Cinzento se interessar por uma Coelha-anã?

Se a amizade é possível? Por que não o amor?

Perceba que é normal chamar de anormal a alguém, ou algo, que é apenas diferente do que concebemos como padrão, ao que é mais familiar. E Beastars trabalha muito bem este assunto em seu enredo não esquecendo os limites e regras do próprio universo.

Aqui o amar ou não amar também é ligado a estética, ao corpo físico, afinal, a genética me faz mais bruto e maior do que a pessoa que me interesso, minhas presas e garras podem ferir a sua pele . Não é fácil ser diferente num mundo que apela à uniformidade, apela para que você se relacione apenas entre os seus iguais.

A Juno é criada inicialmente para ser esta contraposição ao “o que quero que seja” e ao “o que deve ser”. Ela é mais adequada e biologicamente compatível com o Legousi, afinal, é uma loba cinzenta e quem deveria ser a sua companheira natural.

Vou admitir, a Juno bem que merecia o Legousi, olha a fofura XD

E esta discussão é bem exposta no episódio final da primeira temporada, Haru deixa claro, aquela sociedade sempre enxergaria em primeiro lugar ela como uma coelha, e ele como um lobo, um sendo a presa, o outro o predador. Ela até o questiona: como posso acreditar que isto vai dar certo sendo diferente de você? Como posso acreditar que você não vai me devorar?

O fato é que não podemos, sozinhos, mudar a forma como o outro olha para nós. O amor não concebe barreiras raciais, mas a aceitação social sempre impacta na ideia que fazemos de nós próprios e em como concebemos nossas relações. No fundo, todos querem ser aceitos e não vistos como diferentes, o anormal.

Quando eu aceito que você me devorar é mais aceitável que você me amar

Esta questão de como as impressões externas impactam no interno, e se exterioriza em nossas relações de amizade, ou amorosas, está ligado ao campo da imagem própria, de como enxergamos o nosso próprio eu, perceba que instintivamente, por se conceber apenas como a presa, Haru tentou ela própria se jogar na boca do lobo.

A própria coelha dita ser alguém improprio para o Legousi, ou seja, ela deve aceitar que, como presa, ama um lobo, e que para aquele lobo ela não é uma presa. Para mudar a impressão da sociedade, primeiro deve se mudar a si próprio. A aceitação verdadeira vem sempre de dentro e de como nos concebemos ao outro, pois o interior que molda o lado de fora.

É legal perceber que assim como em nossa sociedade, em Beastars os “opostos” também possuem aproximações possíveis, mas assim como em nossa realidade, tais aproximações são difíceis de ocorrer e, para que ocorram, deve se superar os próprios preconceitos e a barreira racial que você mesmo se impõe.

Nota do autor:

Arte e animação – 8/10

Direção – 7.5/10

Trilha sonora: 8/10

Roteiro: 9/10

Entretenimento: 8/10

Nota: 8.2

# Extras

Trailer do Anime


Amo esta brincadeira de reimaginar personagem antropomórfico humano

Sirlene Moraes

Apenas uma amante da cultura japonesa e apreciadora de uma boa xícara de café e livros.