Ni No Kuni – Realmente bom ou ruim?

Este é um titulo que eu vou confessar, eu estava aguardando na Netflix a um tempinho, por que? Por que o longa não é apenas um anime, mas mais uma adaptação baseada em um jogo. Ni No Kuni é uma história adaptando o universo de uma franquia de JRPG. E eu já admiti aqui milhares de vezes que sou uma amante inveterada de fantasia.

Contudo, o filme é uma historia original do que é contado no jogo e de semelhança com seu material de origem só tem o universo fantástico. Portanto, deixou claro que o filme é independente de sua franquia, sendo o que eu consideraria uma expansão e apresentação desse mundo em outra mídia.

Os protagonistas da trama são Yu e Haru, os dois são melhores amigos desde a infância e têm tudo e nada em comum. Haru é o herói esportivo da escola, o cara popular, enquanto Yu é o garoto tático em uma cadeira de rodas, acompanha e planeja novas estrategias para o amigo, mas é o que chamamos de cara invisível.

O filme tem diversos clichês e conveniências, mas eu recomendo para quem curtir fantasia para ter experiencia com a escrita fantástica, porque tem ideias interessante, eu diria que se transformassem ele em uma serie de 8 episódios poderia funcionar melhor e ter um desenvolvimento interessante e mais aprofundado.

Aquele grupinho de personagem que você queria melhor desenvolvimento, tsc

Primeiramente vamos discutir os pontos negativos do roteiro, sendo o principal dele, o tempo narrativo. Apesar de ter uma hora e quarenta minutos, para se trabalhar a trama que foi proposta precisaria de mais conteúdo, mais tempo para explorar o enredo e os personagens em geral, o que teriam feito dele uma experiência muito melhor.

Muitos personagens incluindo os protagonistas precisariam de mais tempo de tela para serem melhor desenvolvidos, não que eles tiveram um trabalho ruim na narrativa, mas alguns momentos chaves que eram interessantes na trama acabam acontecendo em um piscar de olhos, então não tem como você degustar a experiencia de forma mais encorpada.

E talvez o que mais odiei, a explicação de certas motivações e do funcionamento do mundo fica por conta do senhor obvio, Yu e do vilão. Sério, se tem algo que eu mais odeio é os personagens acabarem tendo que explicar muito o que deveria ser colocado em flashbacks e trabalhado na própria narrativa.

E temos o velho problema dos isekais aqui também, claro que eu não queria um mega drama, mas sério que você se ver em um outro mundo, percebe que tudo aquilo não é sonho e não fica meio que desesperado para saber como diabos você poderia sair daquele lugar?

Apresento para vocês o guru, Yu, porque as respostas vem do Além!!!

O Yu de forma calma e sem rodeios conclui que os dois estavam em outro mundo, mas é exatamente ai que esta o problema, ele fica acomodado e tranquilo demais com a situação. Olha que compreendo que os dois estavam mais preocupados com a amiga deles, mas né?

Na verdade a conclusão de Haru de que eles estão presos em um sonho estranho é a reação mais sensata e lógica a tudo que estava acontecendo ao invés do argumento dado pelo Yu, de que os dois estavam em outro mundo.

Mas em momento algum o filme faz algo que comprove aquela dedução, não tem nada além das afirmações do próprio Yu para apoiar melhor a razão de que aquilo tudo era real e que aquelas pessoas eram pessoas reais.

E o contrario também é válido, o filme não mostrou nada que pudesse respaldar a certeza do Haru que aquilo era um sonho então não tinha importância ele começar a sair matando pessoas a rodo para salvar quem amava. É pois é, complicado.

O conflito é interessante, mas superficial por não ser tão bem explorado!!!

Sendo realística, várias conclusões do Yu te geram uma bela de uma suspensão de descrença, porque novamente não tem mais nada que mostre como ele chegou aquela afirmação.

Por exemplo, quando ele conclui que o gatilho para troca de mundos é ele e o companheiro dele estarem em perigo. Como ele chega a esta resposta? Roteiro quis.

Se eles tivessem pelo menos passado por mais duas situações que os fizesse destrocar de mundos, beleza, teria como você entender como Yu chegou aquela reposta, mas foi algo vindo do além mesmo.

Outra coisa que você precisa de paciência porque o roteiro quis é o eu aprendi a ser espadachim por osmose. Os dois simplesmente nasceram com a capacidade de saberem usar uma espada mesmo nunca tendo encostado em uma.

Olha queridos, magia e predestinação não te dão uma árvore de skils prontinha do nada, Ok? Então para não gerar desconforto as capacidades deveriam ser passadas a eles por algum artefato magico que as despertasse e mesmo assim, os dois precisariam de treinamento.

Tipo assim, como vocês aprenderam a usar pedaços de aço cortantes mesmo?

Então entendem porque eu digo que a obra precisaria de mais tempo para a proposta ser melhor executada e apresentada ao público?

Então o filme é ruim Sirlene? Por incrível que pareça, para um publico infanto, não, mas para o publico mais maduro que curte RPG é exatamente um filme ruim porque poderia ser melhor, muito melhor.

A animação pode ser clichê, mas tem ideias e concepções que eu achei bem legais. A primeira é o fato da vida das pessoas de um mundo estar ligada a vida da mesma pessoa em outro mundo.

É, é isto ai mesmo, são mundos paralelos que possuem uma conexão, se alguém morre em um mundo, o eu dele no outro mundo morre também.

Sendo exatamente o contrario do que o vilão diz: que para uma pessoa viver no outro mundo, o eu dele naquele tem que morrer.

Nota: Saliento que acho a mentira do vilão mais interessante, mas, as duas ideias são concepções legais.

Sendo que o enredo da história gira em torno deste fato, já que Yu e Haru estão tentando salvar as pessoas que amam.

Vou admitir, é triste segurar vela para quem você ama

Contudo, enquanto Yu se apaixona pela princesa Astrid que é a contraparte do outro mundo de Kotona, a amiga dos dois que estar entre a vida e a morte, o outro já esta desenvolvendo um romance com a outra.

Sendo interessante notar que o Yu aparentemente também era apaixonado pela Kotona, contudo, Kotona havia “escolhido” o Haru, enquanto neste mundo Astrid o escolhe.

Entendem de onde vem o conflito da trama? Haru no desespero chega a decisão radical de matar Astrid para salvar Kotona – sem saber que na verdade, isto faria ele matar a pessoa que ele ama.

Enquanto o Yu considera que isto é um erro e que ele precisa proteger Astrid, até porque, ele a ama. E os momentos que o filme brilha é exatamente quando estão focando nos protagonistas.

Contudo para uma história sobre dois garotos tentando salvar a garota que amam, o filme se concentra muito pouco nos relacionamentos e personalidade dos três personagens principais para se focar de forma desnecessária nos elementos de fantasia e politica.

A trama da sucessão até seria interessante se melhor trabalhada!!!

Quando eu vou ser sincera, a politica e o mundo de fantasia em si não sustentam a trama. A historia do vilão é até que interessante, mas como ele não teve tempo de tela para ser melhor trabalhado, acaba sendo só um antagonista padrão e superficial.

O que é uma pena, se fosse melhor executada e planejada, sua historia poderia emocionar e o publico até simpatizaria com ele. Outra coisa que ficou superficial é o amor de Yu pela princesa.

Tudo bem que ela parece a Kotona e as duas tem uma personalidade parecida, portanto, isto facilitou ele se afeiçoar a ela, mas, cadê a interação entre os dois para solidificar os sentimentos do herói?

São poucos os momentos que os dois realmente estão juntos para ter criado o elo de amizade e paixão, compreendem? Principalmente no que diz respeito aos sentimentos da princesa pelo Yu.

Tá, eu gosto de um romance, mas me construam ele primeiro!!!

Ele é o seu salvador, a pessoa que a livrou da maldição da morte, mas amor não nasce apenas de um ato de heroísmo, tem que ser construído.

A explicação para tal eclosão de sentimentos pelo garoto é a carência que ela possui de ter um amigo próximo na corte e ela ver esta oportunidade no Yu, mas poderiam ter executado isto melhor.

A conclusão é até previsível, contudo o que achei mais interessante em si é um fato apresentado sobre o Yu revelado no final (que esta presente na fala do rei em determinado momento da trama).

Aquilo sim me pegou de surpresa, já que apesar de esperar que ele decidisse ficar no outro mundo por causa da Astrid, eu não esperava aquela revelação em si.

Um ponto bastante positivo do filme, é a trilha sonora que fica a cargo de Joe Hisaishi. Ela contribuiu bastante para dá vida aos momentos emocionais, principalmente quando o roteiro toca na infância dos protagonistas.

Uma das melhores coisas do filme é a trilha sonora

A animação apresenta um claro design inspirado no jogo original do Studio Ghibli, possuindo alguns cortes individuais interessantes, mas infelizmente toda a harmonização da obra é prejudicada pelo uso decepcionante de CG que acaba quebrando com a imersão e o resultado é algo bem anacrônico já que os objetos 3D não ficaram bem mesclados aos objetos em 2D.

Graças a Kami-sama, o diretor foi até que sensato, e o 3D não é utilizado em momentos chaves, nestes, eles empregam mais cortes em 2D.

Então eu recomendaria Ni no Kuni? Se você quiser uma historia mais light com ideias interessantes, eu até recomendaria, mas o filme carece de um melhor trato e execução, falta coerência e mais peso na historia. Senti uma falta de foco dos roteiristas em centrar a trama no desenvolvimento dos heróis, como no primeiro jogo e não no mundo de fantasia em si.

Contudo, se você quer ter uma experiencia melhor com animes e roteirização, recomendo ver e ir anotando as incoerências para discernir quando um roteiro é bem construído ou apenas conveniente. Lembrando que obras fantásticas não precisam explicar tudo (Como a Viagem de Chihiro), mas o mundo tem que fazer sentido por si só e a ação dos personagens serem naturais.

Sirlene Moraes

Apenas uma amante da cultura japonesa e apreciadora de uma boa xícara de café e livros.