As Crônicas de Arian 2 – Capítulo 5 – Zekasta

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Capítulo 5 – Zekasta

— Jon!

Zek correu até Jon e o segurou nos braços. Um forte brilho dourado surgiu de sua mão direita, que ela rapidamente encostou em sua perna quebrada.

— Zek, pare! — gritou Joanne, levantando bastante zonza, tanto pela queda com a criatura quanto do tempo que ficou segurando a relíquia.

— Mas ele desmaiou!

— Sim, é a perda de sangue ou a dor. Se acalme, ele não vai morrer, mas se tentar regenerar a perna dele muito rápido, nesse estado, ele não vai conseguir mais andar, os ossos da perna têm que ser alinhados antes.

— Como eu…?

Zek ficou observando o osso que rasgou a pele e ficou exposto, mas estava temerosa em tocá-lo.

— Deixa comigo. — Irene correu para o lado de Zek e posicionou as mãos na perna de Jon, próxima ao local do ferimento. — Você é forte demais para isso, iria acabar quebrando mais alguns ossos ao forçar a perna dele.

— Segure ele com força, isso vai doer muito!

No momento seguinte, Irene empurrou o osso para dentro, quebrando mais uma parte dele no processo. Jon acordou dando um grito longo, até que começou a respirar de forma ofegante e desmaiou de novo.

— Certo, agora pode curá-lo, mas faça devagar, e com pausas, se liberar energia da dimensão celestial demais na perna dele, pode até conseguir curar mais rápido, mas os ossos vão se juntar meio tortos. O ideal é que você acelere a cura o bastante para ele conseguir andar com uma muleta amanhã, e na próxima noite termine o trabalho.

— Mas…

Zek não completou a frase, apenas olhou para Lara. Mas Irene entendeu o que ela estava pensando.

— Sim, a Lara consegue curar de uma vez só sem a pessoa ter sequelas, mas a não ser que tenha ficado tão boa quanto ela em controlar a velocidade de regeneração, faça como eu falei.

Joanne respirou fundo, se levantou, e foi até Lara, que estava na beirada do quarto, na parte que antes havia uma janela. Agora, não havia nada ali, só um céu nublado e a garoa da noite caindo sobre elas. A garota estava com um olhar distante, parecendo pensar no que fazer. Joanne não estava em uma situação muito diferente. Frequentemente não se sentia apta àquela missão. Era uma boa professora e líder para missões simples de resgate ou auxílio, o que foi contratada para fazer por vários anos, mas isso, não necessariamente, a fazia uma boa líder para missões mais complexas, diferente do que os sábios da Torre de Luz julgaram. Para piorar, embora pudesse se orgulhar de suas habilidades em combate perto de pessoas normais, agora estava em um grupo onde quase todos estavam muito acima dela.

Se a obedecessem não seria tanto problema, mas tirando Zek e Irene, cada uma daquelas pessoas tinha seus próprios desejos egoístas e fazia o que queriam nos momentos mais críticos. Ainda assim, mesmo que Arian e Marko tivessem ficado, que ordem daria a eles? Ambos entendiam muito mais daquele tipo de combate contra demônios comparado a ela.

Mesmo Jon, que não conseguia nem mesmo usar magia, estava sendo mais útil ao grupo com sua capacidade de guardar informações do que ela. Além disso, aquele garoto estava mudando, não era mais o assistente que seguia suas ordens sem questionar, e isso a deixava incomodada. Por um lado ficava feliz dele estar amadurecendo, mas por outro triste, já que em breve, ele podia se separar deles e tomar seu próprio caminho. Jon era, na opinião de Joanne, um desperdício como seu assistente. Poderia estar ganhando uma fortuna com suas habilidades de decorar qualquer informação e ler livros em velocidade absurda. “O que ele faria quando aquela missão acabasse? Seguiria Marko e Arian por aí? Iria trabalhar para um nobre rico? Faria uma fortuna em casas de aposta?”, pensou ela.

Kadia foi uma surpresa, a contratou apenas por sua demonstração de força na Arena, mas apesar da aparência e comportamento arisco as vezes, ela tinha boa índole. Depois de Zek e Irene, era em quem mais podia confiar que seguiria ordens em um combate. Mas infelizmente não podiam contar mais com ela, só torcer para que ainda estivesse viva e Arian e Marko a achassem logo.

Olhou então para Lara, o maior problema de todos. Não só tinha poder o bastante para matar boa parte daquele grupo se quisesse, como era a única a conseguir carregar a relíquia amaldiçoada sem quase morrer no processo. Pela lógica, ela deveria ser a líder do grupo, mas era imatura e imprevisível demais para isso, segundo julgaram os sábios. Ainda assim, colocar qualquer outro como líder o deixava à mercê das vontades dela, já que sem a mesma, não havia como completar a missão. O que levava Joanne a questionar, por que será que Lara aceitou a missão? Ela nunca ligou para nada enquanto estudava na Torre de Luz, então de onde veio essa mudança de querer salvar o Sul, que nem era a terra natal dela? Ela já havia perguntado sobre isso, mas nunca conseguiu uma resposta séria.

No fim das contas, cada vez mais Joanne achava estar apenas fingindo para si mesma ter algum controle daquele grupo de lunáticos, que podiam tanto salvar Sul, como colocar tudo a perder a qualquer momento.

— O que fazemos agora? — murmurou ela para si mesma.

— Vamos atrás deles! — disse Lara.

— Você está fraca demais para isso. Vamos mais atrapalhar do que ajudar no nosso estado atual… — Joanne vislumbrou toda a destruição a sua volta. — Temos que sair daqui…

— Para onde? A cidade ainda está em alerta com os teleportadores lá fora — questionou Irene.

Foi quando escutaram passos rápidos subindo a escada do hotel.

— Por Alizen! O que aconteceu aqui? — gritou o chefe da guarda chegando ao local. Junto dele, mais 5 guardas e a dona do hotel.

— Fomos atacados por demônios e… Espíritos… — disse Irene.

— O que vocês fizeram para deixarem eles tão nervosos?

O homem provavelmente estava atrelando a destruição aos demônios. Mal sabia ele que a maior culpada era aquela inocente garotinha loira de 10 anos, que no momento estava segurando uma risada.

— Nada, estamos aqui, esperando os teleportadores deixarem a entrada. E no momento procurando uma de nossas companheiras que desapareceu — respondeu Joanne.

— Já tivemos alguns casos de ataque de espíritos, e às vezes demônios, mas nada nessa proporção ridícula… — disse o homem, observando que metade daquele andar não existia mais. — Bem, Celene, arranje outro local para eles ficarem, e não se preocupe com as despesas, tenho certeza que nosso lorde vai bancar a reconstrução do hotel.

— C-certo — disse a mulher, ainda assustada com a situação, e olhando principalmente para Zek, com extrema desconfiança.

— Peguem o que sobrou de suas coisas e venham comigo, vou levá-los para o outro hotel da cidade. Mas aviso, ele é bem pior que esse… Vou estar esperando lá embaixo — disse ela, se virando e descendo as escadas. Ambas as mãos estavam tremendo, provavelmente do nervosismo.

— E aí? Vamos com ela? — questionou Irene, olhando para Joanne.

— Não vejo opção melhor no momento.

Zek foi carregando Jon, Irene apoiando o corpo de Joanne, que ainda não parecia muito bem, e Lara foi seguindo elas mais atrás.

Deixaram um bilhete para Marko, Arian e Dorian, dizendo para onde iriam, pegaram sua carruagem, e seguiram para o outro hotel, que ficava no lado oposto da cidade.

O local era realmente pior comparado ao hotel anterior, que já não era dos melhores. Joanne pegou dois quartos grandes dessa vez, um para homens e um para as mulheres. Zek, no entanto, ficou com Jon por um tempo o curando.

— Irene, acha que era o Marko o lobisomem que pulou naquele demônio no telhado?

— Pelo tamanho… Já viu outro lobisomem daquele tamanho, Joanne?

— É, pensando dessa forma… E falando nisso, você não tem medo? Digo… Bem…

— De dormir com ele? Um pouco, depois de ver ele naquela forma em Amira. Mas depois de ver a cara triste e temerosa que ele fazia para mim desde então, fiquei com pena, e acabou passando… Fora que… Digamos que vale o risco!

Irene deu um sorriso safado para Joanne, que também começou a rir.

— Ai!

— Você está bem?

— Fraturei duas costelas na queda, rir não é uma boa ideia… Felizmente, amanhã já vou estar curada. O efeito da maldição daquela maldita caixa é que ainda não consegui eliminar. O mal-estar e falta de ar só devem passar amanhã.

— Lara, que tal ajudar ela?

A garota já estava deitada na cama olhando para o teto, pensando sabe-se lá o quê.

— Ela tem mais energia sobrando que eu. Basta absorver energia celestial no seu corpo e colocar ela para fluir de uma parte a outra por um tempo que o efeito passa…

— Mais fácil falar do que fazer… Só ajude ela logo — resmungou Irene.

— Não, Lara tem razão. Se formos atacados de novo e ela não tiver energia espiritual para lutar vai ser péssimo, eu posso aguentar essa sensação por mais um tempo, ainda é bem melhor do que segurar a caixa. Por sinal, a maldição dela não está mais forte? A última vez que peguei na relíquia não me deixou tão mal.

— Está ficando mais forte conforme chegamos mais perto do Norte — respondeu Lara, ainda com os olhos no teto do local, e jogando a relíquia de uma mão para outra, repetidamente, como se estivesse provocando Joanne, ao mostrar que o objeto não a afetava em nada, mesmo estando mais forte.

— Como está o Jon? — perguntou Irene.

— Não acordou ainda, mas parece bem. Daqui a pouco vou lá dar uma olhada e trocar com a Zek.

— Sei que você acha que está fazendo um favor a ela, mas não está! — disse Irene.

— Estou em dúvida quanto a isso faz algum tempo, mas… A Zek gosta do Jon? Digo, mais do que como amigos?

— Finalmente! — Irene falou tão alto que deve ter acordado todo o andar em que estavam.

— Ah, então era isso. Nunca fui boa com esse tipo de coisa… Eles parecem muito ligados desde que os conheci, mas nunca entendi exatamente qual a relação deles.

— Nota-se… Se não já teria reparado em outra coisa importante também.

— Como o quê?

— Você descobriu a primeira parte, então vai notar a outra, eventualmente. Ele está começando a se esforçar um pouco mais, afinal.

Joanne ficou meio confusa, mas resolveu deixar para lá e foi se deitar.

— Sei que está evitando falar disso, mas… acha que a Kadia ainda está viva? — perguntou Irene, pouco a vontade em como tocar no assunto.

— Não sei, honestamente. Mas desejo sinceramente que esteja. Não só por gostar dela, mas pela revolução que ela iria causar na Torre de Luz, quando vissem um demônio com tanta aptidão para controlar energia da dimensão celestial.

— Ela não parecia tão apta assim nos seus treinos.

— Assim como Zek, ela puxa energia com tanta facilidade que não consegue controlar o fluxo. Mas no momento que aprender a controla-lo, nem a Lara vai conseguir para-la.

Lara não respondeu, só fez uma expressão incrédula, ainda olhando para o teto. Joanne estava exausta, e apagou logo depois, assim que sua cabeça encostou no travesseiro.

Lara, no entanto, parecia bem acordada e atenta a porta do quarto. Do lado de fora, barulhos de passos começavam a ficar mais altos, a medida que o tempo passava. Isso era comum no outro hotel também, então resolveu ignorar.

No quarto ao lado, Zek observava Jon dormindo, enquanto ficava cada vez mais confusa. Nunca foi muito boa em se expressar, ou sequer entender direito o que os outros, ou ela mesma estava sentindo. Não culpava seus pais por terem a mandado para aquele mundo. Não era só ter nascido sem asas, ela claramente tinha outras limitações que tornavam complicado sua convivência com as pessoas.

Desde pequena, sempre foi bastante fechada, e fazia apenas o necessário para ninguém reclamar dela na Torre da Luz. Nunca foi realmente feliz por lá, mas era melhor do que o mundo dos celestiais, onde todos a olhavam com pena, incluindo seus pais. Assim que chegou na Torre de Luz, quando tinha 13 anos, foi celebrada quase como uma entidade divina, assim como ocorria com outros celestiais que ficavam um tempo no local. Isso a deixou muito feliz inicialmente, mas não durou. Logo essa veneração sumiu, ao descobrirem que ela não tinha as aptidões e controle sobre a energia da dimensão celestial que a maioria da sua espécie apresentava.

Quase sempre que era obrigada a usar magia alguém se machucava, até que desistiram de ensiná-la. “Perigoso demais”, eles diziam. As aulas teóricas também eram um problema. Tinha dificuldade em decorar as informações e entender explicações e textos mais complexos, mas nunca teve coragem de admitir isso. Como resultado, acabou repetindo as matérias por mais vezes do que conseguia contar. De vez em quando, um professor a passava por pena, mas em geral todos pareciam desapontados com ela.

Em pouco tempo virou uma piada entre os estudantes na Torre de Luz, e isso só piorou quando Lara chegou lá, um ano depois dela. A maldita não perdia uma oportunidade de caçoar dela, sempre a chamando de burra, ou implicando isso de alguma forma. Mesmo na parte física de esgrima, onde deveria ter vantagem, Lara a superava e humilhava. Sua vida foi um verdadeiro inferno por anos, até que conheceu Jon, um garoto humano que veio de outro mundo. Nessa época, ela já estava com 18 anos.

Lara também pegava no pé dele por se incapaz de usar magia, mas diferente de Zek, ele a ignorava, e ainda melhor, começou a humilhar Lara nas aulas teóricas. Infelizmente, isso acarretou surras frequentes dos admiradores dela, até que um dia, com pena, ela interveio. Foi suspensa por vários dias por espancar os alunos que estavam batendo em Jon, que ficou revoltado por ela ter sido punida por ajudá-lo. Depois disso, ele se ofereceu para ajudar ela nas matérias que tinha dificuldade. Zek, envergonhada, recusou, mas ele continuou insistindo, até que ela cedeu.

A partir daí os dois começaram a estudar juntos todos os dias na biblioteca. Jon passava lições e simplificava explicações de matérias complexas. Zek pensou que acharia aquilo tedioso, mas para seu espanto, acabou gostando. Na verdade, virou seu momento favorito do dia, não via a hora de ir para a biblioteca estudar com Jon. Quando ia dormir, queria que o tempo passasse logo, já que poderia se encontrar com Jon nas aulas também, e sentar ao seu lado, assim como no almoço e na janta. Se ficasse se concentrando em olhar e falar com ele, podia esquecer dos olhos das outras pessoas a julgando. Jon falava o tempo todo, de coisas simples a assuntos que deixavam Zek completamente perdida. Sempre teve a impressão de que Jon sabia que algumas coisas que dizia eram difíceis demais para ela entender, mas ao mesmo tempo, parecia feliz nela estar prestando atenção mesmo assim.

Em pouco tempo começaram a chamá-la de “guarda costas do teleportado”, mas ela não ligava. Sua fórmula para a felicidade ficou bem simples, só tinha que ficar perto de Jon. Isso ficou complicado quando ele começou a avançar de turma em turma em velocidade absurda, completando o curso teórico em tempo recorde, e apresentando várias teses e ideias que deixaram os sábios bastante espantados.

Assim que ele conseguiu o cargo de assistente de Joanne, uma das professoras mais novas da academia, e frequentemente enviada a missões de ajuda a vilas próximas, Zek se candidatou para entrar na escolta pessoal dela nessas missões. Não tinha grandes habilidades com magia, mas fisicamente era tão superior a um humano que foi aceita sem sequer a testarem. E apesar de não frequentarem mais as aulas juntos, Jon continuava indo todas as tardes ensinar Zek, sempre com um sorriso no rosto. Não sabia se ele só estava sendo gentil, ou se apreciava a presença dela, como ela a dele, mas não importava, desde que continuassem juntos, era o bastante para deixá-la feliz.

Pouco depois surgiu a missão atual, que Zek aceitou com prazer ao saber que Jon iria junto. Mas desde então algumas coisas começaram a lhe incomodar. Mais precisamente, após se juntarem ao grupo de Arian. Jon estava mudando, e isso a deixava preocupada. Como ela se encaixaria dentro dessas mudanças? Elas iriam separá-los no futuro? Também passou a ficar incomodada quando ele conversava com Joanne, não entendia bem o porquê, e chorou de felicidade quando Jon lhe deu aquele colar, o que também não entendia.

Antes, ficar perto do Jon só lhe trazia paz e felicidade, mas atualmente, mesmo que esses dois sentimentos ainda se mantivessem, também lhe causava confusão. Zek levantou e ficou olhando para o rosto de Jon, imaginando se isso lhe daria alguma resposta, e sem notar, foi instintivamente aproximando seu rosto do dele. Era como se algo a estivesse atraindo.

Os lábios dos dois estavam quando se encostando, quando a atenção de Zek foi desviada por um barulho baixinho de passos do lado de fora. Eles foram aumentando gradualmente de intensidade e, do nada, pararam. Foi então que a porta abriu devagar, mas não havia ninguém a empurrando.

Zek se levantou e seus olhos ficavam alaranjados. Ela tirou sua espada e aguardou, atenta aos barulhos que continuavam a aumentar. Sua mão direita juntou energia celestial, iluminando todo o quarto.

Nesse momento, do nada, a porta fechou rapidamente, e os barulhos pararam. Zekasta respirou aliviada, mas em seguida, sentiu um forte mal estar, e tudo se apagou para ela.

Próximo: Capítulo 6 – Encurralados