Akame ga Kill! (anime) – Uma visão mais dark e trágica do shounen de batalha tradicional

Com um plot simples, nem um pingo de sutileza e uma quantidade insana de violência e carnificina, Akame ga Kill! tenta se desviar de diversos padrões do shounen de batalha convencional.

Sinopse

Tatsumi vai para a capital em uma tentativa de ganhar a vida como soldado e juntar dinheiro para ajudar o vilarejo aonde foi criado e treinado. Ao chegar lá descobre que nada é como ele pensava. Desiludido com as atrocidades que presenciou ele resolve se juntar a um grupo de assassinos do exército revolucionário chamado Night Raid, que trabalha para derrubar esse império corrupto, não importando quantos tenha que matar no processo.

Review
Akame tem um plot extremamente simples: os membros da Night Raid tem que ajudar o exército revolucionário a libertar o império. Todos os assassinatos e combates são um meio para se chegar a isso. Matar políticos corruptos, generais influentes, guardas poderosos, é tudo um meio para se chegar a prometida revolução.

Quem espera uma aprofundamento da parte política pode se decepcionar. A obra é bem superficial quanto aos pormenores do conflito e só se dá ao trabalho de escancarar que o império está podre por dentro e as poucas pessoas boas nele presentes normalmente acabam mortas ou sofrendo na mão dos corruptos. Para compensar a simplicidade da trama a obra aposta no forte entretenimento visual. As famosas construções (build ups) em Akame são feitas muito rapidamente, de modo a manter praticamente todo episódio com ação e muito sangue. Episódios chatos aonde quase nada acontece não existem nesse anime (pra ser honesto tem episódios corridos até demais).

Jaegers (aliados do império) X Night Raid (aliados dos revolucionários)
Embora o protagonista ganhe uma atenção considerável no início o desenvolvimento de personagem não foi um forte da obra. Existem personagens demais e o roteiro quer dar um tempinho para cada um deles se mostrar, o que acaba resultando em uma troca continua de foco e só alguns dos personagens tendo tempo de tela o bastante para ganharem afinidade com o público. Mesmo assim tem gente que se liga emocionalmente aos mesmos com pouco tempo, seja por gostar da personalidade ou qualquer outro aspecto.

Levando em conta a quantidade de personagens do lado aliado, inimigo e número limitado de episódios, até que conseguem fazer um trabalho aceitável. É inegável que o protagonista masculino (Tatsumi) e a principal vilã (Esdeath) são os poucos com um pouco mais de tempo de tela, mas ainda assim todos tem sua chance de mostrar a que vieram em algum momento.

Tatsumi, o protagonista (ao menos em tese).
Esdeath, você não está pronto para ela.

Mesmo sendo o protagonista é curioso como Tatsumi perde um pouco da atenção na maioria das lutas. Fora delas a história ainda é vista da perspectiva dele, assim como diversas situações envolvendo a vilã principal da obra, mas nos combates ele reveza atenção com todos os outros personagens igualmente. Ao final fica parecendo que o autor quis criar um personagem que tem mais foco que um personagem secundário, mas não o mesmo que um protagonista shounen normal costuma receber (ex: ele está longe de ser um elemento chave em todas as lutas). Não é questão de ser bom ou ruim, é só estranho e diferente do normal mesmo.

Os vilões inicias da obra não são nada memoráveis, apesar de alguns chamarem mais atenção, como Seiryu, com sua obsessão cega e exagerada por justiça. Mas felizmente esse aspecto melhora bastante passado a introdução da obra (ep 1 ao 8). Apartir dai um grupo mais variado e interessante dá as caras (os Jaegers) e uma das vilãs mais estranhas, carismáticas e poderosas do mundo shounen começa a mostrar a que veio.
Esdeath está longe de ser uma vilã injustiçada. Ela é sádica, cruel e obcecada por batalhas. Mas estranhamento seus pontos positivos – como lealdade, respeito para com seus subordinados e uma estranha obsessão por encontrar alguém por quem possa se apaixonar – acabam sempre se destacando sobre os negativos, e isso acabou a tornando a personagem mais popular da obra rapidamente.

Se já se interessou pela obra vá ver o anime, porque daqui pra baixo tem spoilers leves, e esse anime deve ser bem mais legal de ver sem saber nada sobre ele.

Algumas sequencias utilizam quadros estilizados para aumentar o impacto (o que nem sempre funciona).
O desenvolvimento da trama é meio irregular no início. A obra mostra que é violenta e trágica logo no primeiro episódio, mas a cena é mal trabalhada e com uma troca mal feita de drama pra comédia, então fica difícil saber o que esperar dali pra frente. Os episódios 2 e 3 também não são nenhum primor e essa tentativa inapropriada de colocar alívios cômicos junto a embates violentos dura mais algum tempo (vi gente que gostou disso mas pra mim era bem irritante). Akame ga Kill só começa a estabilizar e mostrar a que veio apartir do episódio 4, e com seu primeiro grande climax no episódio 6 (o anime funciona bem no teste dos 6 episódios para anime 2 cour). Apartir dai a obra mostra sua verdadeira cara, e o porque de sua fama entre os adeptos do shounen com pegada mais dark.

Alguns aspectos diferentes do shounen tradicional chamam atenção como: as lutas são rápidas e sem enrolação; o protagonista leva um banho de água fria e sofrimento a todo momento; é rapidamente desiludido de que ele seja o herói da história; ferimentos não são curados em 1 dia ou com faixas; não existe poder da amizade nem “plot armor”; qualquer um pode morrer a qualquer momento; pessoas “más” podem ter finais considerados felizes e pessoas boas finais horrendos. Se uma coisa é certa é que Akame está pouco se lixando para a mensagem moral que passa.

Esdeath finalizando um bando de inimigos em poucos segundos, a lá batalhas shounen.

Algumas bases do shounen como personagens dando super pulos, quebrando o chão quando se movem muito rápido e derivados continuam presentes. O protagonista também, embora amadureça com as pancadas que leva continua representando a esperança de que as coisas vão melhorar, que o shounen tradicional tanto presa. Como não existe “ki”,”chakra” ou “cosmo” em Akame, o elemento para dar um extra espalhafatoso nas lutas foi deixado para super armas feitas com base em criaturas míticas. Todo personagem importante da obra tem uma (apesar de só existirem 44 em todo o mundo).   

Nem tudo é como o protagonista espera.

As mortes amplificam o conflito, aonde cada um dos lados quer vingança sobre o outro, além de servirem pra mostrar lados mais humanos de alguns personagens mais frios.

O modo de Akame de tratar a morte é curioso. Inicialmente pensei que a tragédia seria uma grande marca no protagonista pra fazer ele evoluir, e em certos as aspectos isso não deixa de ser verdade. Mas ao longo da história por mais impactado que cada tragédia o deixe Tatsumi se recupera rapidamente. Ele se acostuma com as perdas. O contraste disso com o momento que ele pergunta a Akame nos primeiros episódios como ela era tão fria quanto a morte de seus companheiros é notável. Uma pena eles não terem usado essa memória como comparativo, seria uma amostra de desenvolvimento do protagonista, se tornando algo que ele não entendia no início da história.

No mais a morte é uma ferramenta simples usada pelo autor para mostrar que aquilo ali é sério e que todo confronto tem consequências para os dois lados (e pra chocar também), seja para “aqueles que querem derrubar o império”, como para “aqueles que tentam defende-lo”. É inegável que o recurso é usado até demais e as vezes sem o tempo adequado, mas só de ver um shounen se levar mais a sério nas consequências das batalhas, passando uma mensagem de “não é uma brincadeira aonde um dos lados vai perder e na semana que vem pode tentar de novo” já é muito gratificante. Afinal, são poucos os autores com coragem pra fazer isso (é um suicídio comercial se você pensar bem), já que cada pessoa gosta de um personagem especifico e a tendencia quando eles morrem é que desanimem com a obra (“efeito Death Note”), motivo pelo qual a maioria dos autores que quer fazer um final trágico espera chegar no final pra fazer a carnificina, garantindo assim que a os fãs continuem acompanhando até os últimos episódios/capítulos.

A variedade que tentam dar a carnificina também é curiosa. Em obras desse gênero o personagem costuma ser exaltado em seu momento final ou faz algo heroico antes de partir, mas em Akame isso nem sempre acontece. Algumas mortes da obra são frias, outras brutais, outras covardes, outras bonitas e em outras o personagem morre sem poder fazer nada. Chelsea tentando fugir após ter falhado no assassinato da Kurome, enquanto é lentamente mutilada, é uma cena bem marcante por exemplo, assim como seu final com a cabeça em uma estaca. É como se o autor tentasse dizer que morrer heroicamente é uma visão idealizada e irreal. Nem sempre dá pra morrer de forma heroica, as vezes você é simplesmente humilhado e morto, só isso. É brutal visualmente e psicologicamente para os personagens. Inclusive, um monologo de um dos personagens para o Tatsumi reflete bem essa característica da obra:

“Você terá algumas experiências dolorosas e desesperadoras.”
“Na verdade, a maioria delas será trágica.”
“Mas fomos nos que escolhes trilhar esse caminho.”
“Nos faremos o trabalho sujo.”
“E mudaremos esse mundo.”

Na minha visão esse acabou sendo o maior entretenimento dessa obra: suar frio nas lutas porque seu personagem preferido pode morrer ali. É um diferencial que nunca tinha visto em nenhum shounen de batalha. O autor não tem pena de matar ninguém e se esforça dentro do possível para fazer você se importar com o personagem – se isso vai realmente surtir efeito ou não depende de cada um. E obviamente o sofrimento e tensão de cada pessoa vai variar de acordo com quem está com a corda no pescoço. Existe até mesmo algumas comparações com Game of Thrones. A trama é absurdamente mais simples, mas o entretenimento primário é o mesmo, de torcer para seus personagens preferidos saírem vivos dali enquanto a história prossegue e você vibra com seus triunfos em batalhas aonde a vitória nunca é garantida.

Infelizmente, essa mudança de paradigma de Akame se perde um pouco nas mãos de uma direção medíocre. O anime tem bons episódios, mas eles são intercalados por episódios medianos e outros fracos. A obra parece que vai terminar só como algo mediano e esquecível em determinado momento. Mas então chega o final e ela começa a emendar um bom episódio em cima do outro (os últimos 3). Todas as pontas são fechadas, o objetivo principal é reforçado e os climax grandiosos que a pessoa ficou a obra toda esperando finalmente acontecem – com surpresas, que vão deixar alguns muito satisfeitos e outros revoltados, por não estarem acostumados com ações desse tipo em shounens de batalha tradicionais (ex: o final do episódio 23). Não é perfeito e com certeza tem uns pontos negativos, mas tudo é amarrado tão bem no final que a sensação que fica é de um anime bem satisfatório, que teve seus problemas, mas que soube entregar sua mensagem e mostrar a que veio no final – que, vale dizer, é fechado, o que é mais um ponto positivo pra mim. O modo como o episódio final volta em algumas coisas do episódio 1 e as conclui também é muito legal (ex: a vila do protagonista). 
Aspectos Tecnicos
A direção de Akame é a definição perfeita de “mediana/medíocre”. Ela entrega o básico, sem grandes acréscimos, sacadas inteligentes, criatividade, brilhantismo ou correções claramente necessárias. E isso resulta em uma mistura de episódios, bons, medianos e fracos. O mesmo para o roteiro, que basicamente copia o original sem nenhuma mudança digna de nota ou elogiável, descontando o final, mas até ele foi o autor do mangá que passou pra staff do anime.

A animação é mediana. Na parte de vida cotidiana ela entrega o necessário para não incomodar, aonde ela varia mesmo é nas lutas. Episódios climáticos entregam um trabalho mais caprichado e com bons cortes de movimentação fluida. Outros são animação mediana, outros animação pobre/econômica, de modo que a animação só sobe de nível e se estabiliza nos episódios finais.

Mas se a animação nem sempre entrega, os cenários de Akame entregam. São lindíssimos, principalmente os com por do sol ao fundo.
O soundtrack é uma bagunça. Ele chama atenção, mas da forma errada. Diversas músicas parecem deslocadas com as cenas, outras funcionam medianamente, outras encaixam muito bem, varia bastante.
Conclusão
Akame é uma obra que recomendo pra qualquer um que goste de ação e já esteja cansado dos padrões do shounen de batalha tradicional. A obra tem seus erros e acertos; e sem duvida seu maior mérito acaba sendo a tentativa de criar um shounen de batalha brutal e bem diferente do padrão (mesmo que a execução disso nem sempre seja 100%). O entretenimento ser alto também ajuda. Todo episódio tem ação e a trama não para um instante durante 24 episódios – a ponto de em determinados momentos ficar claro que a narrativa está correndo rápido até demais. O anime tropeça algumas vezes, mas se ergue e consegue se fechar de forma tão satisfatória para a proposta, que o que ele fez de bom acabou se sobressaindo sobre as partes fracas pra mim. Sem duvidas vale a pena conferir. 
Direção: 6/10
Roteiro: 7/10
Animação: 7/10
Soundtrack: 6/10
Entretenimento: 10/10
Nota final: 8/10

Anime X Mangá

O anime segue mangá de modo geral (tem umas diferenças, mas são pequenas), mas apartir do episódio 20 ele entra em uma rota original com final fechado. Quem passou o final do anime pra staff foi o próprio autor do mangá, então o final parece bem coerente com tudo que foi apresentado (apesar do episódio 20 e 21 terem ficado fracos). O mangá ainda está sendo publicado e ninguém sabe se o final do mangá será igual ou não. Tem coisas parecidas acontecendo mas o modo e que elas acontecem é diferente do anime.
Quem terminar o anime e quiser ir pro mangá comece do capitulo 39.

Extras:


Recomendo assistirem os Akame ga Kill Theathers.Tem um total de 24, cada um tirando sarro com os acontecimentos de um episódio (o da Visual Novel com a Esdeath é épico!).

Por último, eu fiz análises episódio a episódio do anime. As que mais recomendo são do episódio 9, episódio 10, episódio 13 e episódio 14, que fiz de modo bem humorado surtando loucamente pelo vilã Esdeath. E as do episódio 23 e episódio 24, aonde estava mais inspirado e os eventos foram mais impactantes.

Relacionado:
-Comentários episódio a episódio do anime
-Comentários capítulo a capítulo do mangá

Você pode gostar...

  • Guilherme Melo

    Acho que podemos dizer que a Chelsea matou a Kurome, pois foi por causa dela que a Kurome ficou com as celulas mortas e ia acabar morrendo a longo prazo

  • Cristhian Oliveira

    Acabei de assistir e digo que vale a pena. Muito bom mesmo… Apesar do fim trágico :'(
    Enfim… vou ler o mangá pra saber o que acontece lá.